quarta-feira, 19 de maio de 2010

Você é um assimilado?

É isso mesmo que eu estou perguntando. Ser assimilado é renegar suas origens. Viver a realidade do outro, do colonizador, do dominante, do descobridor que também é descoberto. Bem, posso dizer que o sou, então. Mas o que há de errado nisso? Vejamos o meu caso. Meu cabelo é afro mas a minha religião não é. Gosto de musica negra mas minha lingua não é. Estudo Literatura Africana mas não quero ir para África. Uso adereços de negros na cabeça mas me visto como um mauricinho. Amo o rebolado, o gingado, o suingue e a pele da negra mas não tenho muitas negras amigas [só a Vanessa e a Milla]. Estou estudando línguas européias como inglês e francês mas não me interesso nem um pouco por aprender kimbundo, Suahiili, Yorubá ou outra língua de qualquer etnia africana (só Moçambique tem mais de oitenta etnias). Eu sou negro mas não sou puro. Venho da mistura de negros e índios. Queria pintar a minha pele de mais para o escuro, mas vou continuar assim: esse negro de pele branca. Esse negro que lê Bernardo Guimarães com o mesmo entusiasmo que lê Franz Fanon.
Se você observar pela preferência sexual.. Ah! Ai é covardia! Olhe para as minha amigas. São muitas negras lindas, de sorriso cativante e de ancas repolhudas que fariam qualquer Cesário Verde morrer de inveja. Se visse, por exemplo, a Priscila, uma ex-namorada que muito lembra a Elaine, diria que eu sou um extremamente exagerado por me encantar por aquilo tudo [ai, ai!]. E lamento muito aquelas que não estão enquadradas nesse grupo. Deus quis assim e assim será. Não adianta reclamar comigo, nem com Darwin!
Mas não quer dizer que eu não namorei ou que eu não goste das brancas. Tive até uma branca jeitosa da qual eu não me lembro o nome. Mas cada um tem a sua preferência e a minha é essa. Não posso ser criticado por isto. E como fala Tenreiro em 'A canção do mestiço': 'Se amo brancas, sou branco/Se amo negras, sou negro/Pois é..'. O que ele quis dizer é que somos seres cambiantes, transitantes entre o defensor e renegante da propria cultura, que se manifesta e se esconde todo momento em mim, quando ouço Renato Russo e Mano Brown.
Então, se posso dizer que sou assimilado por não preservar a minha cultura em cem porcento negro, então o sou. Mas o que há de errado? Você também o é.

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